terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Gauche na vida (e no cinema)

Quando nasci, estava tudo bem, tudo certo até a hora em que alguém deve ter aberto a porta da maternidade e me condenado enquanto dizia: "- Vai, Bia, ser gauche na vida!" Só pode ter sido isso.
Depois a coisa deslanchou quando, na segunda série, fiquei de castigo no canto da sala lendo O Patinho Feio. Tudo por ter rido da menina na carteira ao lado que deixou a caixa de lápis de cor cair no chão. Daí, então, não parou mais. Mas eu não quero ficar me lamentando, porque agora encontrei minha turma.

Digo isso, porque estou certa -e ninguém me convencerá do contrário- de que o Woody Allen fez o papel da Cristina pra mim.
Isso mesmo, foi fácil perceber a homenagem: além da irmã que nunca tive, Cristina, quem mais eu conheço que gosta de muita coisa, admira música, cinema, literatura, pintura e qualquer tipinho de arte mas não tem o mínimo talento pra absolutamente NADA????? Não me decepcionem, essa sou eu.

Juntamente com Cristina, Gilbert Grape também é um dos únicos que, durante a infância, certamente teriam me convidado pra sua festinha de aniversário. O cara que, em vez de "descolado" era completamente "deslocado" e que queria muito, mas muito, ir embora da @#%&! de cidade em que vivia. Sei como é, Gilbert...

No filme quase sinônimo de gauche, "Os Desajustados" (1960, nome original "The Misfits"), Clark Gable vive o personagem que ainda insiste em continuar sua vida caçando cavalos selvagens, enquanto o país todo se transforma e se rende a industrialização.

Voltando o foco para a "bonitinha mas ordinária" Cristina, no filme ela é interpretada pela lindona e nada comum Scarlett Johansson. Pois é... Scarlett parece ter certa preferência quando o assunto é uma personagem gauche.
Em "Ghost World" (2001, tradução para "Mundo Cão"), a atriz vive o personagem mais entediante de que me lembro. Tempos depois, em Match Point, fez a linda e intrigante Nola..... que, sem delongas, também não tem o menor talento pra nada e não sabe o que fazer da vida.
Chega a me dar desânimo pensar numa possível estigmatização de uma atriz assim.

Agora chega. Enquanto eu fico aqui escrevendo ou acumulando saudade de pessoas queridas, os estômagos continuam sua função: e que fome!




*Marilyn Monroe também está no filme "Os Desajustados". O papel dela é bem inocente e sensível, longe de como a costumavam querer no cinema.
**Este foi o último filme completo dos dois atores. 3 meses depois, Clark Gable teve um infarto.

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Quarta Dimensão - Debut



Não é isso que vocês estão pensando. "
Quarta Dimensão" não é o nome de mais uma rave como 'universo paralelo', podem ficar tranquilos.
Bom, passada a primeira (má) impressão, vamos ao que interessa: o post inaugural, a estréia, o
debut. Decidi, depois de acabar me envergonhando da maioria de minhas idéias, que este primeiro post trataria da escolha do nome, de uma pequena introdução que talvez, por si só, já poderia dar bastante pano pra manga.

"Quando vieres me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. é que agora sinto necessidade das palavras - e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. a palavra é minha quarta dimensão."

É dum trecho de Água Viva (Lispector, C.) a origem do nome que este blog carregará. E somente porque acho que cobrarão isso de mim, digo, então, que a escolha do tal nome se justifica pela ânsia de explorar/construir o mundo e a própria consciência através da linguagem. Sim, eu acredito que a linguagem é capaz de criar uma realidade, uma dimensão à parte.

Vocês talvez dirão que a linguagem é apenas o jeito que usamos pra nomear as coisas do mundo, etiquetar mesmo - e isso é um pensamento 'referencialista'. Eu direi que não: a realidade, o mundo é que é constituído pela linguagem, pelo discurso.
Funciona pra mim pensar que eu só tenho consciência de algo a partir do momento em que consigo nomeá-lo, conceitualizá-lo.
Também por isso aparece aqui a bela frase do filme do Jabor ("Eu sei que vou te amar"): deve haver uma palavra que uma vez dita muda o mundo. Deve haver, deve haver... tenho quase certeza! Uma palavra que toque o humano no que ele tem de mais humano. Eu posso até delirar bastante e pensar que essa palavra é "eu". Isso porque parece que a maior dificuldade de todo mundo nem é entender Cálculo 3 ou os motivos da crise financeira internacional, ou Gerativismo... Mas, sim, parece que a maior dificuldade de um ser é entender-se.

Enfim, seria ótimo saber a opinião de alguém sobre tudo isso - e isso é um nada sutil apelo por cometários, confesso.

Nos próximos posts eu tratarei sei lá do que. Meu tema é tudo.

*Pra quem se interessar, Debut, também é nome do primeiro disco em carreira solo da Björk, que vale sempre a pena ser ouvida.